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Apresentado o Grémio Literário de Língua Portuguesa
Todos temos obrigação de defender a Língua e a Cultura
Por Fernando Cruz Gomes
Sol Português
O Grémio Literário de Língua Portuguesa é bem capaz de ter pernas para andar. Os seus "pais" decerto que o rodearam do maior carinho e desvelo, quando lhe apontaram (e aprontaram) a luz do nascimento - e vão continuar a ampará-lo.
Mesmo atendendo a que, por norma, Grémio significa outra coisa - o dicionário começa por dizer que se trata de um "grupo de entidades patronais que exploram ramos de comércio ou indústria mais ou menos afins" - acreditamos que, aos poucos, talvez seja possível levar a carta a Garcia.
Até porque quem fundou o tal Grémio - que também poderia ser uma União (sem nada a ver com sindicato) - o fez com o melhor dos objectivos. Objectivos que vão tardar em chegar necessariamente. Veja-se, desde já, que foi em 7 de Dezembro de 2004 que Óscar Monteiro, Ricardo Castro Lopo, José Carlos Teixeira e Manuel Louro fundaram o Grémio, a jeito de associação ou corporação. E só agora, passados quase dois anos, é que se começa a pegar o touro pelos chifres, como soe dizer-se. Fazendo-se a apresentação na velha Casa Lusitana.
De qualquer modo tarde... é mesmo aquilo que nunca chega, como diz mais ou menos assim, um provérbio português. E o Grémio, feito por quatro, vai decerto multiplicar os seus membros. Já os deve ter começado a multiplicar, uma vez que logo na quinta-feira, 26 de Outubro, aquando da apresentação da ideia do Grémio no Consulado-Geral de Portugal em Toronto, muitos se inscreveram como membros do Grémio Literário - o que quer dizer de Escritores ou de quem escreve - ali mesmo durante a sessão. E ainda bem que assim foi. Ainda bem que temos tantos escritores ou, no mínimo, padrinhos de escritores.
"O propósito é de todos nós"
Maria Amélia Paiva, que foi a anfitriã da sessão de apresentação, na Galeria Almada Negreiros, começaria por dizer que "o propósito é de todos nós", a jeito de "partilha entre todos os que quiserem fazer parte". E isto porque começa a ser cada vez mais necessário "dar passos importantes para a divulgação da Cultura". E o Grémio, na óptica da Cônsul, "é um instrumento que hoje pode ser essencial".
Para enfatizar o seu discurso, citou Fernando Pessoa: "a minha Pátria é a Língua Portuguesa", motivo porque "todos temos obrigação de defender a nossa Língua e a nossa Cultura", transmitindo, assim, aos mais novos uma tarefa por demais importante.
Óscar Monteiro, um dos progenitores do Grémio, falou a seguir, começando por contar como tudo começou - "o homem sonha e a obra nasce" - trazendo a terreiro Fernando Pessoa.
Para ele, o "cogito ergo sum" fez com que algumas boas vontades se unissem. E ao falar na necessidade que parece haver em perpetuar o Passado, lembrou que o próprio Vate era capaz de estar muito longe de imaginar que "o Português viesse a ser Língua de tantas Pátrias". Estaria, decerto, quando conseguiu "unir" povos, que outra coisa não é a sua mais do que conhecida obra "Os Lusíadas". Estava longe de pensar que o Português viesse a ser Língua de tantas Pátrias...
A música e a... musicalidade
Óscar Monteiro, na sua explanação, haveria de falar nas mornas, nas marrabentas e nos sambas, sem deixar de parte, os fados e outras toadas onde se encaixa o Português.
"Com berço no castelo de Guimarães, a Língua Portuguesa não pertence mais só a Portugal", mesmo que cante os nossos feitos e as nossas vivências, merecendo, assim, "ser cultivada na nova dimensão canadiana", para que por cá nos possamos juntar onde as mentes possam cogitar.
No fim, um pedido: "Juntem-se a nós". Castro Lopo - que já "criou" ou "reinventou" algumas coisas entre nós, como a Academia (da saudade) do Bacalhau - falou em Inglês e Português, para melhor compreensão de alguns dos presentes que não dominam a Língua de Camões e de Jorge Amado. Incentivou tudo e todos a apoiar o Grémio, para "podermos apoiar todos quantos se expressam em Português". E deixou no ar a ideia-noção de que "se o projecto do Grémio não for avante... só nos podemos culpar a nós próprios". José Carlos Teixeira José Carlos Teixeira é nome sobejamente conhecido. Em termos do conhecimento, decerto que é importante que se integre em tudo o que for... sede de andar mais em frente na área do saber. Para ele, a pergunta de "como é que vamos atingir os objectivos", lembrando logo a seguir, como que em resposta, que "o Canadá é um País muito rico, muito vasto e muito complexo". Para ele, e face à diversidade das regiões, a primeira fase terá de ser a criação de comités, sobretudo em áreas como as de Montreal, Ontário, Manitoba, Saskatchewan e Alberta. E deixou algumas reticências: "será que tudo isto vai trabalhar?" É que, de facto, a "comunidade portuguesa não é só a de Toronto", havendo a necessidade de "mais diálogo entre as várias comunidades", já que "há falta de diálogo, designadamente, entre a nossa e as comunidades angolana, moçambicana, brasileira e cabo-verdiana". É este Grémio = "abrangente até onde for possível" - que se deseja, como disse o professor, certo de que conhece suficientemente o povo para assim poder falar. E como "somos comunidade em transição... - lembrando o tema-chave da Semana Cultural Açoriana, que estava a decorrer - chegou a altura de criarmos esta ponte", que é o Grémio. Oxalá, diremos nós, na certeza de que as palavras de José Carlos Teixeira - pensador e estudioso que nos honra - vão também no sentido de fazer votos por que tudo vá em frente. Presenças e certezas Força de comunicação ou não, a verdade é que estava por lá, no vasto salão da galeria Corte Real, onde tudo decorreu, o cônsul-geral da Grécia em Toronto. Para além de várias pessoas que, por norma, nem sempre se juntam às actividades portuguesas. No final, declamaram-se algumas Poesias. Castro Lopo deu o mote, seguindo-se, depois, sempre com temas próprios ou de outros, nomes como Fátima Toste, Idalina Silva, Luís Palaio, Euclides Cavaco e Ana Júlia Sança. A Poesia é parte integrante de todo o esquema cultural. E se é facto que nos interessou, sobremaneira, ver e ouvir Castro Lopo, por até aqui lhe não conhecermos os dotes, não é menos facto que houve certezas confirmadas. Como seria o caso de Euclides Cavaco que veio de London para ajudar a dar o sadio "pontapé de saída" a um Grémio que tem pernas para andar. E ao ouvirmos Fátima Toste, ficamos com a ideia de que a comunidade - nós próprios enquanto comunidade - não a tem sabido apreciar. O mesmo se pode dizer de Idalina Silva ou de Luís Palaio, mestre na Arte plástica que não sabíamos ter a "costela" literária que ali expressou. E Ana Júlia? Não levem a mal. Mas, de facto, Ana Júlia merece um capítulo especial. Agarrou no tema geral do Grémio - e daqueles que o fizeram nascer - e entrou, mar dentro, das terras e das Pátrias onde se fala (e canta) Português. Chamou a terreiro António Baticã Ferreira, da Guiné, e deu-lhe voz. E outros... e outros... Interessante foi a explanação dos conceitos da poetisa a respeito da imigração (também com i). Ao ler o seu poema Emigrante, incentivou-nos a todos a pensar, a cogitar. Até porque, como antes alguém dissera, o cogito, ergo sum é válido também ali. Pensar. Cogitar. E se pensarmos... somos. O drama começa no momento em que nasce a ideia de partir - começa ela a dizer, para sintetizar que "aí param os sonhos e começam os pesadelos". De facto, e a despeito de tudo "Emigrante... esta é a alcunha que te deram..." A Ana sabe o que escreveu. Viveu o que disse. Com laivos de histórias que não só dela, não. Ponto final? Não. Não pode ser o ponto final. Bem ao contrário, tem de ser algo a começar, as palavras em movimento, rumo a uma Cultura que vale a pena transmitir aos que aí vêm! Kelly M - uma menina azougada e que veio de longe - foi chamada a cantar. E cantou o que sabe. Pena que não lhe emprestassem ao menos uma guitarra... sei lá! É que, assim, tadinha, não conseguiu transmitir o que, pelos vistos, sabe. E a Luso Can Tuna? Pois, os meninos e meninas da Luso Can Tuna animaram a parte final da festa de apresentação do Grémio Literário de Língua Portuguesa. Como têm feito - honra lhes seja feita - em tantas outras ocasiões. Fizeram-no em Português e relevando uma das maneiras tradicionais que nós temos - que nós tivemos, desde sempre - nas Universidades e fora delas para cantar também... Portugal!